Há poucos dias, num hotel da cidade californiana de São Francisco, um brasileiro se acomodou à mesa do café da manhã. O dia estava bonito, o sol ardia e um bonde passava. A vida parecia não trazer outros desafios senão a escolha entre ovos mexidos e ovos quentes.
Não assim, entretanto, para a recepcionista, que ao vislumbrar o hóspede tratou de acudir. Com um breve e elegante galope, materializou-se ao lado dele e, sem perda de tempo, disse-lhe com urgência e discrição: "Evidentemente o senhor deseja um guardanapo preto."
O brasileiro não desejava um guardanapo preto. Na verdade, jamais pensara num guardanapo preto. Não fazia idéia do que isso pudesse significar. A princípio até julgou que o tivessem confundido com outra pessoa, mas a recepcionista o olhava com tamanha firmeza que não poderia haver dúvida. Intimidado, ele respondeu que, sim, queria um guardanapo preto.
Com um gesto fluido, ela agiu. Enquanto sua mão direita pinçava o guardanapo branco que o hóspede segurava na ponta dos dedos, um floreio da esquerda depositava um guardanapo preto, pretíssimo, no colo dele. Realizada a operação, ela se afastou com a suavidade dos punguistas.
Em fevereiro de 2008 a internet trazia o depoimento de uma certa Emilief: "Sábado à noite jantamos num bom restaurante e nos perguntaram se queríamos guardanapos pretos. Fiquei em dúvida sobre o que responder, não sabia se podia ser coisa de vodu."
O brasileiro não pensou em vodu, mas ponderou se não herdara do pai a filiação a alguma ordem secreta, e aquilo era o sinal de que fora reconhecido e aceito. Os maçons têm apertos de mão característicos. Os templários talvez preferissem guardanapos pretos. Certo é que acabara de ser iniciado a uma irmandade cuja existência e desígnios desconhecia. Comeu torradas pensando na eventual necessidade de tomar Jerusalém.
Mal sabia ele que guardanapos pretos se espalhavam pelos Estados Unidos com a rapidez de uma epidemia de influenza. Bastava ir à internet. Jlipof: "Minha mulher & eu recebemos um guardanapo preto no restaurante Joel em Atlanta, mas ainda não em Nova York." Jen: "Guardanapos pretos são oferecidos no Capital Grille de Boston." Gary Hubber: "Deram-me um guardanapo preto no restaurante Pahu i'a, no Havaí." Judy (em resposta pressurosa a Jlipof): "No Capital Grille de Nova York eles oferecem guardanapos pretos!"
O brasileiro se achou extraordinário por pouco tempo. Infinitamente mais interessante teria sido pôr os pés em casa e encontrar embaixo da porta uma intimação em latim para comparecer, de guardanapo preto no colo, a uma cripta em Malta ou na Terra Santa. Infelizmente, suas investigações iriam lhe mostrar que os primeiros guardanapos pretos haviam surgido em Los Angeles, o que derruba toda ilusão romântica. A explicação era bem mais prosaica: a cidade de Ben Affleck, Britney Spears, Ice Cube e Paris Hilton apenas concluíra que os guardanapos brancos eram deselegantes - e que era hora de endireitar os séculos de mau gosto.
Uma troca de mensagens num fórum especializado deita luz sobre a gênese da prática. "Chego a frequentar três restaurantes por dia e nunca tinham me oferecido um guardanapo preto - até que fui a Los Angeles", escreveu alguém: "Achei esquisito." O internauta Nelson apressou-se em explicar: "Um guardanapo branco sobre fundo escuro muitas vezes sugere, principalmente no caso de homens, que a pessoa está vestindo um avental. Em outras palavras, você está dividindo a mesa com o maître." Diante da explicação, Jessica respondeu: "Muito obrigada, Nelson, pelo seu interessante ponto de vista."
Ao inconveniente das cores contrastantes soma-se outro, relativo a fiapos. Na internet há literalmente centenas de homens e mulheres que não hesitam em dar um testemunho sofrido sobre essa chaga: "Parei de frequentar um ótimo restaurante em Atlanta porque eles só usam guardanapos brancos e quando levanto estou com o colo cheio de fiapos brancos", diz um lamento. Los Angeles, ciosa de sua reputação de cidade elegante, tratou de encontrar uma solução: trajes escuros, guardanapos pretos.
Bastou abrir as comportas para que as forças da história se pusessem em marcha. Era a febre. Em 2002 já se lia a notícia espaventosa: "Michael Tuohy, chef e proprietário do Woodfire Grill de Atlanta, inaugurou seu restaurante em agosto apenas com guardanapos pretos." Tuohy explicou o arrojo: "Com a decoração que adotamos, os guardanapos brancos reluzem demais e simplesmente não exsudam a atmosfera aconchegante e calorosa do meu restaurante."
Tuohy é daqueles chefs que não querem apenas cozinhar bem. Desejam proporcionar uma experiência. Nos estabelecimentos que comandam, o prato jamais é redondo, a apresentação da comida lembra certos ambientes da Casa Cor e o vinho é um denso texto semiótico. São restaurantes assim que reúnem as condições necessárias à boa aclimatação dos guardanapos pretos. Entre comensais que rodam o vinho com refinados arabescos de munheca, a novidade tende a prosperar.
A Europa se mantém surda ao avanço. Diz uma mal-humorada restauratrice francesa: "Não esperem receber um guardanapo preto por aqui. Usamos brancos. Ponto." (É notório o conservadorismo do Velho Continente, cujo mais recente soluço progressista data de 1789, se bem que Robespierre preferisse guardanapos brancos.)
No hotel em São Francisco, o agora elegante brasileiro levou algum tempo para se haver com o bom gosto, dado que guardanapos pretos, além de finos, exigem perícia. Como eles ficam harmoniosamente camuflados sobre tecidos de tom escuro, paga-se o preço de, vez por outra, levar aos lábios a barra da camisa ou a ponta do blazer. Nessas horas, discretamente, convém espanar o vestígio de ovo que terá se alojado na risca de giz ou na lã merino.
A etiqueta também recomenda que se fique atento para não encostar o lado sujo do guardanapo na roupa imaculada, tarefa que exige olhos de lince e vigilância constante, pois guardanapos pretos são useiros e vezeiros em não revelar suas manchas. De fato, comentou um dono de restaurante, "a prática elegante de distribuir guardanapos pretos nos faz economizar tanto com lavanderia, que