SUPERGATO
Gatos não foram feitos para coleiras. Embora tendam à desenvoltura de um trapezista naturalmente adestrado, o colar em volta do pescoço acaba funcionando como uma forca. A leveza, nesse caso, já não se sustenta. Inútil dizer que nem sequer se deram conta do perigo quando o real se interpõe em seu balé fora de série; a visão da forca não será mais doce em virtude das circunstâncias. Por isso foram feitas as coleiras de elástico. A vantagem de serem de elástico reside na possibilidade de retirá-las a qualquer momento, desembaraçando-se do perigo. Gatos tendem à perfeição e são rigorosos também com as palavras, dariam ótimos escritores mas são ainda mais perfeitos como gatos. Para eles a qualquer momento significa a qualquer momento. Não apenas quando se enroscam num galho ou numa corda durante uma fuga apressada ou no meio de um grand échappé. Não foram feitos para coleiras e as coleiras feitas para eles - esgar seria a palavra. É preciso não perder de vista que os saltos de um felino podem exceder em até cinco vezes o tamanho do seu corpo, a favor da vida ou contra ela: se uma coleira os prendesse a essa altura não haveria peso suficiente para afrouxar o couro até que cedesse, tampouco haveria a mínima chance de as pa-tas alcançarem o solo em tempo de interromper a compressão da traquéia. Se tal azar se repetisse sete vezes, a morte seria certa. E então a imagem de um gato esperneando, alheio a toda a gramática dos seus movimentos, daria alguma idéia do ponto a que chegamos com as idéias de "casa" e de "doméstico". O balé felino perderia a graça.
Conheci o Gato ainda menina. Naquela época ele não era o Gato. A desenvoltura sobre a qual hoje não resta a menor dúvida recuava; quer dizer, um tremendo erro de perspectiva: atenta ao contorno magro das costelas, à fala anestesiada, à grossura das mãos maiores que o corpo, não me dei conta do quanto ele prometia.
No começo o Gato fazia serviços gerais que iam de podar as plantas a instalar o novo chuveiro; consertar o vazamento da pia, limpar as grelhas nas laterais da casa para os canos de escoamento não entupirem; tirar o cabelo acumulado nos ralos, a folha acumulada nas calhas, o limo acumulado (e uma vez um rato) na caixa d'água. Pau para toda obra lá em casa e logo na vizinhança inteira. Minha mãe dizia que ele cativava o lado bom das pessoas porque ficou órfão desde cedo. O coração da minha mãe era feito de algum pano inflável, desses que sobem aos céus com formas graciosas e incendiárias, causando verdadeiros estragos pelo menos uma vez por ano. Mas com relação ao Gato foi meu segundo erro de perspectiva.
Tempos depois ele virou pedreiro, por conta mesmo da demanda lá no bairro. Começou a juntar homens mais jovens para a parte pesada do serviço. Não quero dizer que não trabalhasse, muito pelo contrário. Mas achou um jeito de trabalhar duro ganhando dez vezes mais do que dez homens que trabalhavam duro para ele. Achou também um jeito de humilhá-los para impor respeito. Sempre que possível uma palavra bruta, a ameaça de largá-los à própria sorte, um cascudo com o nó grosso dos dedos. Foi quando se tornou verdadeiramente o Gato. Aonde não pode chegar com o nome chega com o braço. Engordou trinta quilos, especializou-se em hidráulica, largou os tijolos.
Hoje não chama mais ninguém pelo nome. Chama pela divisão do trabalho: "Boa tarde, Pintor." (Para o rato:) "Até logo, cavoucador."
Sempre me perguntei por que o Gato de Botas usava botas. Vaidade? Apreço ao chão? Sim, há uma incorrigível defasagem nas minhas perguntas. E o erro se impõe a cada passo. Pois quando espero que o Gato organize uma grande jogada, um ato definitivo, tudo o que faz é ir do serviço para a casa.
E no entanto eu mesma não acreditaria se não visse de perto. De noite, todas as luzes apagadas, o Gato se deita no colo da mulher. O cômodo está quieto, nada se mexe. As crianças foram dormir faz tempo. Ele já jantou e os talheres e o prato esperam sujos pela água no dia seguinte. Hoje não se trabalha mais, é uma ordem sua sempre que volta. Faz um gesto com as mãos, a mulher tenta afastá-lo. Ele revém com impaciência. Enfia o rosto na barriga dela com alguma força, ajeita com as mãos o terreno, começa a afofá-lo com a almofada dos dedos. As mãos alternadas, uma de cada vez. O gesto refoge à observação. Seria preciso vê-lo de muito perto, talvez por dentro. Aos poucos a mulher vai afrouxando a resistência. É preciso aceitá-lo do jeito que é, com as suas estranhezas. Agora ele afofa a barriga dela e suga pequenas tetas imaginárias. Suga e ronrona, durante quarenta minutos, um pouco mais. Não faz diferença se as tetinhas não lhe oferecem nenhuma gota de leite.
CENTRO
A primeira vez que saí do meu corpo deu medo, parecia que eu nunca mais ia ter peso para voltar. Eu estava num cabeleireiro de bairro numa quarta-feira, dia em que pé e mão saem por oito reais. O salão lotado, a barulheira foi me deixando zonza, zonza, até que eu não conseguia mais dizer uma palavra. A manicure me perguntava a cor do esmalte e eu apontava, minha voz tinha sumido, "aquele, aquele ali". Quando me dei conta, estava vendo de cima o mulherio eufórico, os cabelos espetados à espera do tempo da tintura. De cima ia ficando tudo engraçado, enquanto a Josenete perguntava se eu queria o Via Láctea de sempre e eu apontava o esmalte marrom. Ela esbugalhava os olhos. "O marrom?!" O Rodrigo olhou torto à noite, mas no fundo ele gostou do marrom.
Aos poucos fui me acostumando com a leveza. Cheguei até a achar bom. Eu queria aproveitar pra refrescar a cabeça, sair de