Revista Piaui
"Abaixo dos refrigerantes, a água é o produto que os americanos mais adquirem em garrafas"
despedida
Água dura em garrafa mole...
Os políticos e consumidores anunciam nos Estados Unidos a era da água encanada para enfrentar a mineral
MARCOS SÁ CORRÊA
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Désolé, Perrier! O governador David Paterson decretou no mês passado que todas as repartições públicas do estado de Nova York se armem de bebedouros. Ele quer expulsar as garrafas de água, pois elas gastam dinheiro público com um produto industrial que, a rigor, ninguém fabrica. Em maio do ano que vem, ficarão definitivamente proibidas de comprá-las.

É mais um sinal dos tempos. Desde o ano passado, sempre que se ouve num restaurante nova-iorquino a pergunta que virou o prefixo musical de todas as refeições - "com gás ou sem gás?" - o prefeito Michael Bloomberg responde: "Cidade de Nova York." Ou seja, a boa e velha água da bica. Em outras palavras: ciao, San Pellegrino!

Além de prefeito, Bloomberg é oficialmente o homem mais rico de Nova York. Ficou bilionário vendendo notícias frescas ao mercado financeiro. Anda ostensivamente de metrô, mas já foi flagrado pelo New York Times a caminho da estação, discretamente, em carros oficiais. E está muito à frente do presidente Lula em matéria de terceiro mandato, que as regras das eleições para a prefeitura proibiram e agora, numa reforma feita sob medida para Bloomberg, resolveram permitir. Está sempre em campanha - e a da água estava dando sopa. Com ela, retirou do orçamento municipal 6 mil garrafas.

David Paterson é um ex-procurador negro que herdou em 2008 a vaga do governador Eliot Spitzer, fritado num escândalo em que surgiu como cliente de uma rede de prostituição de luxo cujas integrantes custavam mil dólares por hora. Cortar os custos da administração estadual passou a ser uma das prioridades do vice, desde que pegou o resto de mandato com a crise mundial se armando pela proa. Tirar das contas públicas um supérfluo como a água de grife, em seu caso, também veio a calhar.

Depois da Virgínia e do Illinois, Nova York foi o terceiro estado a tirar a despesa com água engarrafada de seus custos administrativos. Os outros começam a fazer os cálculos. Connecticut põe 500 mil dólares por ano nessa rubrica. Massachussetts, 600 mil. Só a Universidade do Minnesota paga 180 mil dólares anualmente por garrafas de água.

Diante de tamanhas cifras, desde 2007 pelo menos sessenta prefeituras engrossaram a grande marcha oficial da volta aos bebedouros. Entre elas, pesos pesados da máquina pública, como Chicago, Miami e Filadélfia. São Francisco, uma das primeiras a reinaugurar a torneira, credita à decisão uma economia de 1 milhão de dólares.

 

Essa é uma briga de gente grande. Abaixo dos refrigerantes, a água é o produto que os americanos mais adquirem em garrafas. São pelo menos 32,5 bilhões de litros por ano, à razão de mil litros por segundo. Só no estado de Nova York circulam 2,5 bilhões de garrafas por ano, apesar da boa fama de seus reservatórios públicos, cujos encanamentos chegam a 95% da população e dão, com folga, para 21 milhões de pessoas, inclusive os visitantes. Essa rede de distribuição é complexa e cara. Mantê-la em bom funcionamento até meados do século custará nas próximas décadas quase 39 bilhões de dólares ao erário. E, com a moda de beber água de garrafa, a simpatia do contribuinte por estas obras vinha secando.

"Os cidadãos investiram bilhões de dólares em impostos pela certeza de que nós temos pura água potável em nossos canos, e eles precisam colher os resultados, usando essa água", disse o governador Paterson, ao anunciar seu decreto. Sede insaciável é só a dos engarrafadores, que queimam por ano 17 milhões de barris de petróleo para fazer seus frascos de PET, e produzem 2 milhões de toneladas de lixo, em forma de plástico descartável - ou seja, eterno. O Estado passou a cobrar 5 centavos de dólar por cada frasco. Só devolve quando as garrafas forem comprovadamente recolhidas para reciclagem.

A história está do seu lado. Nova York tem água boa pelo mesmo motivo que o pão francês é bom. Basicamente, porque morreu gente para melhorá-los. Na França, quando a época das revoltas populares levou muito padeiro ao cadafalso, por suspeita de conspiração contra a economia popular, por alterarem a receita da massa, até que o Estado passou a regulamentá-la. E, para os nova-iorquinos, depois que atazanaram a cidade epidemias de sarampo, em 1729, de varíola, em 1731, e de febre amarela, em 1798, em que camelôs saíram às ruas vendendo caixões.

Com a praga sanitária, lavrava a corrupção política. O surto de cólera em 1832 encheu os bolsos do senador Aaron Burr, que prometeu trazer à cidade a água do rio Bronx e aplicou o dinheiro arrecadado para o empreendimento na fundação de um banco, o futuro Chase Manhattan. O problema já era sério em 1664, quando o governador holandês Peter Stuyvesant entregou Manhattan, sem luta, aos ingleses, atribuindo a rendição em seu diário a que o forte que deveria defender a ilha não tinha "poço nem cisterna".

 

Abastecer Nova York foi uma saga contada pelo jornalista Gerard Koeppel no livro Water for Gotham, desde a fundação da cidade até o dia - em meados do século xix - em que 64 quilômetros de aquedutos encheram com 170 milhões de litros de água do rio Croton o reservatório de Murray Hill, onde hoje se ergue a Biblioteca Pública de Nova York.

Ia uma longa distância desde o fim do século xviii, quando a marquetagem da água brotou em Nova York antes da água propriamente dita. Naquele tempo, o tanoeiro Gerardus Comfort vendia em seus barris um líquido extraído de poço artesiano que ele anunciava como Água de Chá. Ou seja, um artigo mais nobre que a comum, tirada do Collect Pond, a mina a céu aberto onde curtumes, destilarias e matadouros despejavam seus resíduos. O New York Journal chamou-a de "esgoto" em 1785. E, quase quarenta anos antes, de passagem por Manhattan, o botânico sueco Peter Kalm, discípulo de Lineu, achou-a tão intragável que "nem os cavalos aceitam beber".

Os políticos que, de

 

 
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