Revista Piaui
"Não tem como você fugir da realidade de ser quem você é, uma pessoa que sempre percebe o limo negro impregnado nos tijolos, os defeitos dos amigos."
diário
Saindo das trevas
DAPHNE MERKIN
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FINAL DE JUNHO DE 2008_Dia luminoso. O sol brilha à plena força, o céu exibe um azul límpido. Estou deitada de costas na grama, ouvindo o chilreio intermitente dos passarinhos; meus olhos estão fechados, para melhor saborear a sensação de calor no rosto.

Nos cerca de vinte minutos ao ar livre depois do almoço (um dos quatro momentos do dia em que a rotina é interrompida desse modo), tento esquecer onde estou. Me imagino num outro lugar, e não neste jardim calçado de concreto e cercado de arame, limitado de um lado por um viaduto e do outro por uma perimetral, com alguns canteiros verdes e poucas flores solitárias. Meus movimentos são vigiados por uma assistente psiquiátrica mais ou menos amistosa.

Vejo R., a mais recente integrante da nossa tribo disfuncional de doze pessoas da unidade 4c, sentada num banco com uma camisa pólo de caxemira totalmente inadequada para a estação. À sua volta circulam pessoas de outras alas do hospital. A unidade onde me encontro é voltada principalmente para o tratamento de pacientes com depressão ou distúrbios alimentares. O meu grupo quase não tem contato com as outras unidades. Podíamos estar em planetas diferentes. A depressão em si já cria um planeta próprio, praticamente impermeável à influência dos outros, exceto quando alguma presença espectral insistir para você voltar ao mundo, alugar um filme, sair para comer alguma coisa, se animar um pouco.

Internei-me no hospital dez dias atrás, depois de seis meses ladeira abaixo.

A depressão - essa gosma densa e negra do desalento - estava longe de ser uma novidade na minha vida. Desde a infância vinha batalhando contra ela, como se ao sair do ventre me tivessem envolvido num cobertor cinzento e áspero, em vez da manta de algodão macio, em tom pastel. Não acho que tenha sido um bebê triste, a julgar pelas fotos em que apareço com um ar moleque, os olhos brilhantes e sorriso aberto. Ainda assim, quem sabe se já não estava adotando a máscara de bem-estar que todo deprimido aprende a usar para poder navegar pelo mundo?

O que sei é que aos 5 ou 6 anos de idade, com meu macacão de veludo e correndo de um lado para outro, comecei a ficar apreensiva com o futuro que me esperava. Sentia que os fatos não tinham conspirado a meu favor por muitos motivos, entre eles o fato de haver na minha família crianças demais e pouca atenção que desse conta de todas. Aos 8 anos, não queria mais ir à escola, devido à mistura de medo e ansiedade de separação. Aos 10, fui internada porque chorava o tempo todo.

Adulta, sempre me perguntava como me sentiria se fosse uma pessoa com uma visão mais luminosa das coisas. Alguém que possuísse as ilusões necessárias, sem as quais a vida é insuportável. Alguém que conseguisse se levantar pela manhã sem se deixar aprisionar por pensamentos melancólicos: Não adianta, é tarde demais, sempre foi tarde demais. Desista, volte para a cama, não adianta. Tanta coisa a fazer. Nada a fazer. Não adianta.

Era essa sem dúvida a pior parte: não ter como fugir da realidade de ser quem você é, uma pessoa que sempre percebe o limo negro impregnado nos tijolos, os defeitos dos amigos. Como o sangue, a tristeza que corre por baixo da pele das coisas começa como um filete mínimo e termina como uma hemorragia, manchando tudo.

 Já faz quase quatro décadas que frequento consultórios de terapeutas e falo do meu desejo de morrer, da mesma maneira que outras pessoas falam, por exemplo, de sua vontade de ter um caso amoroso. Sei o quanto o terror silencioso da depressão nunca se dissipa por inteiro depois que se passa por ele. Ele fica a pairar, temporariamente aplacado pela medicação e a energia renovada, esperando o momento de voltar a se infiltrar na sua vida. Ele se instala no espaço por trás dos seus olhos, fazendo sentir a sua presença mesmo nos momentos em que assuntos mais leves ocupam o primeiro plano da sua mente. Ele se aferra a você e puxa o seu braço, impedindo-o de se sentir totalmente à vontade.

 

31 DE DEZEMBRO DE 2007_Minha crise mais recente, que me fez pousar no Instituto Psiquiátrico do Estado de Nova York, começou na véspera de Ano-Novo. Apesar de me sentir tomada por uma disposição soturna, consegui me maquiar, me vestir, prender os brincos de pérola às orelhas e seguir para um jantar onde falamos de assuntos corriqueiros - crianças, escolas, peças a assistir, as razões de viver.

Mas, ao mesmo tempo em que conversava e ria, meus pensamentos continuavam sombrios e desordenados, implacáveis em seus botes letais. Você é uma fracassada. Um peso para os outros. Inútil. Pior que inútil: imprestável. Pouco depois da meia-noite, assisti aos fogos de artifício sobre o Central Park e contemplei as explosões de cor - vermelho, branco e azul, meandros velozes de verde, tiras de púrpura, bolas de prata, centelhas douradas. Minha filha de 17 anos, Zoë, estava ao meu lado e enderecei minhas súplicas aos céus. Quero melhorar. Quero conseguir ir em frente. Prestar atenção nos apelos simples que me prendem à vida, aos recados gravados na secretária eletrônica dizendo para me animar, recados do ex, dos irmãos, das pessoas que gostam de mim.

 

JANEIRO DE 2008_Passei os seis meses seguintes combatendo a depressão com todos os meios ao meu alcance, refugiando-me no narcótico da leitura, aceitando algumas encomendas de textos (que entreguei todos com semanas, quando não meses, de atraso), saindo para jantar com amigos, dando aulas num curso de composição literária e até fazendo uma viagem a St. Tropez com uma amiga. Engolia meu coquetel costumeiro de antidepressivos - Lamictal, Risperdal, Wellbutrin e Lexapro - e usava um adesivo de Lemsam. Não passo um período livre de psicotrópicos desde meus vinte e poucos anos. E não foi uma fase passageira que

 

 
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