Revista Piaui
"Passados nove meses daquela manhã de agosto, é visível o abalo de parte da vizinhança com o fim do teatro."
coisas da arquitetura
O rescaldo
Em São Paulo, o novo Teatro Cultura Artística mobiliza políticos, empresários e arquitetos e seu projeto é aprovado e tombado a toque de caixa
FERNANDO SERAPIÃO
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O sargento Fernando Procópio trabalha há 25 anos no Corpo de Bombeiros de São Paulo. A jornada é de 24 horas, com descanso de 48. Sua base é o quartel da rua da Consolação, próximo ao centro. Com três andares, o prédio tem refeitório, área de treinamento e dormitórios. Na madrugada de 17 de agosto passado, um domingo, depois de atender ocorrências triviais, Procópio descansava no quarto do 2º andar, que tem meia dúzia de camas e televisão. Faltavam duas horas e 26 minutos para terminar seu turno quando, às 5h04, o plantonista soou o alarme. Havia um grande incêndio em um teatro na rua Nestor Pestana.

Um grupo de intelectuais da elite paulistana criou, em 1912, a sca, Sociedade de Cultura Artística. A ata da fundação foi assinada na sede do jornal O Estado de S. Paulo, e até hoje o estatuto determina que o conselho da Sociedade deva ser presidido por um diretor do jornal. Inspirada em similares européias e, sobretudo, nos salões literários de Paris, a Sociedade surgiu para promover palestras sobre temas ligados à cultura, aos quais se seguiriam recitais de música clássica.

Os saraus - custeados por mensalidades e ingressos - no começo eram organizados em diversas casas de espetáculos, como o então novíssimo Teatro Municipal. Com o passar das décadas, as palestras foram abandonadas e a instituição passou a ser conhecida - e admirada - pela programação de música erudita, balé e ópera. Em boa medida, a Sociedade de Cultura Artística foi responsável pela formação cultural de um setor da burguesia paulista, que pretendia mimetizar hábitos europeus.

Desde os primeiros anos, a sca cogitou construir uma sede. Em 1919, a diretoria comprou uma gleba de quase 5 mil metros quadrados, numa ruela que desembocava no começo da rua da Consolação. Sete anos depois, encomendou um projeto a Ricardo Severo, engenheiro português radicado em São Paulo. Uma escolha ideal: Severo fora um dos fundadores da Sociedade e era sócio do escritório Ramos de Azevedo, o mais ativo arquiteto da cidade na primeira metade do século passado. Ele desenhou um suntuoso teatro em estilo neocolonial (com platéia de 2 400 lugares), jardins, restaurante, galeria de exposição e biblioteca. Sem recursos, o plano ficou no papel. Quinze anos depois, nova encomenda, dessa vez ao escritório de Severo, que desenhou um edifício art déco (com 1 500 cadeiras). O projeto também não vingou.

Em 1940, Esther Mesquita, filha de Júlio Mesquita - o diretor do Estadão -, fez uma nova encomenda. Solteira, culta, fluente em cinco línguas e melômana, foi ela quem consolidou a sca. O escolhido foi Rino Levi. Paulistano, ele estudara em Roma e se tornara conhecido por aclimatar o racionalismo modernista aos trópicos. A obra era um reflexo de sua personalidade séria e contida.

O Teatro Cultura Artística foi inaugurado em março de 1950, com concertos regidos por Villa-Lobos e Camargo Guarnieri. O prédio mereceu registro nas principais revistas internacionais de arquitetura. Era o mais moderno teatro brasileiro, com dois auditórios sobrepostos - o menor, no térreo, e no primeiro piso, a sala maior, cuja acústica sempre foi admirada.

Em resposta ao terreno triangular, Levi criou uma massa em leque, posicionando o palco principal não na orla, mas na empunhadura do leque, localizada no fundo do terreno. A curvatura da última fileira da platéia da sala maior foi espelhada na imensa parte elevada da fachada principal. Essa parede curva, voltada para a rua, se transformou no principal elemento do projeto - ela refletia a platéia, relacionava-se com o desenho da rua e, principalmente, era suporte de um grande painel.

Com 48 metros de comprimento, por oito de altura, o painel veio a ocupar, como uma bandana, a testa do prédio. Não se trata apenas de uma obra de arte aplicada à parede, mas de um elemento constitutivo do projeto, tal qual um pilar ou uma abertura. Para escolher o artista, a Sociedade promoveu um pequeno concurso entre Di Cavalcanti, Burle Marx e Jacob Ruchti. A despeito da opinião de Levi, que preferia o abstracionismo de Burle Marx, a diretoria foi acadêmica e escolheu o figurativismo de Di Cavalcanti. Desenhada em papel, a obra repleta de figuras femininas foi executada em pequenas pastilhas de vidro. O painel reinaria absoluto sobre o bucólico casario da região.

       

Trinta e oito segundos depois do alarme o sargento Procópio e outros seis bombeiros estavam dentro do enorme caminhão ae 24. Acompanhado por um carro-resgate, o mamute sobre rodas precisou de três minutos para percorrer o quilômetro e meio de distância até o incêndio. A poucos metros do teatro, o sargento percebeu que a fumaça negra era abundante e pediu ajuda.

O entorno do Cultura Artística não é o mesmo de quando foi inaugurado. O fundo do teatro é sombreado por prédios residenciais com altura média de vinte andares. As duas construções laterais possuem arquitetura temática, inspiradas em torres medievais. Olhando-se o teatro da rua, o vizinho à esquerda é um pastiche de castelo escocês com tochas estilizadas na fachada. Funciona ali uma boate de strip-tease (com quartos para os mais aflitos), antigo cenário de enredos picantes do bas-fond paulistano, dirigidos pela proprietária, "tia Tânia", que recebia os clientes ricos na porta, em anos mais prósperos. Hoje, o prédio está arrendado "para a máfia coreana", como sussurram os moradores das adjacências. Na hora do incêndio, a casa noturna estava vazia: o expediente termina religiosamente às 4 horas e a turma da limpeza só chega pela manhã.

O vizinho à direita do teatro é a Catedral Evangélica de São Paulo. De linha presbiteriana e feições neogóticas, o templo é do início dos anos 50. Na hora do incêndio, só estavam na igreja o zelador e a mulher, que moram nos fundos, no 8º andar de um anexo colado ao teatro. Ao ser acordada pelo som das sirenes, a esposa do zelador abriu a janela e deu de cara com a desgraça: "Acorda que o

 

 
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